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sábado, 18 de outubro de 2014

Nada

Simone Leal


Enrolou o pé na coberta, tentou não abrir os olhos - Para de se molhar! Grita a vizinha para o filho de quatro anos. Então, abriu os olhos sem esperanças de que pudesse voltar para o estado de sono profundo. Olha para a janela, a réstia de sol combinada com a cortina lilás gera um contraste insuportavelmente delicado. Talvez, seja melhor trocar de cortina, uma cor escura combinaria mais com o quarto e com os últimos meses. 

Pensa nos afazeres do dia, lembra-se da coisa menos importante e num movimento brusco toca o chão com as pontas dos pés. Agora, o dia começou, não há mais o que fazer! A água lhe toca o rosto, a sensação é boa, parecida com aquela de quando o vento balança o cabelo e deixa o cheiro de xampu no ar.

Café, não é a sua bebida preferida, mas a força do hábito a faz consumi-la de maneira instintiva. Passa as mãos no cabelo várias vezes, como se essa fosse a chave para começar a trabalhar. No fim, mais um dia de ontem, de antes de ontem e tantos outros ‘’ontens’’. 

Uma música para ajudar o sol a se esconder mais depressa, a mais tocada do momento não serve, a sua preferência está naquelas que são impopulares, gosta de pensar que foram feitas para ela. No fundo, sabe que não passa de uma grande bobagem – ‘’Feet don't fail me now. Take me to the finish line. All my heart it breaks every step that I take’’. Lana Del Rey tem sua presença garantida no repertório. 

A noite chega, já pode respirar tranquila, é como se se sentisse mais compreendida neste período do dia. Uma pausa para olhar o céu, as estrelas e pela milésima vez lembrar que precisa economizar dinheiro para comprar um luneta. Cada vez menos sente o amargo da bebida na boca, mais um copo e se convence de que é o suficiente. Arrisca um cigarro, a fumaça continua desagradável, então, desiste. 

Na madrugada ocupa-se assistindo os capítulos das suas séries preferidas. Fecha os olhos para não ver as cenas de violência, logo em seguida acha graça. Afinal, a ficção não pode ser pior que a realidade. Um bocejo, uma lembrança. Chris Martin segue cantando – ‘’Nobody said it was easy’’. Repete mentalmente: não é nada, não é nada, nada. O corpo pesa e se deixa vencer pelo sono – ‘’No one ever said it would be this hard’’.

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