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quarta-feira, 12 de março de 2014

Entre Calçadas e Pés Curitibanos




Simone Leal 
 


 Há quem cultive o hábito de contar mentalmente os quadradinhos das calçadas onde pisa, algo do tipo: pé esquerdo no quadrado preto, pé direito no quadrado branco, e assim por diante até chegar ao seu destino ou se entreter  com outro assunto mais relevante. No Centro de Curitiba, não há quadradinhos fervorosos por serem pisados e contados, o que é uma pena para os mais tímidos, pois assim poder-se-ia andar ao acaso, sem o perigo ou necessidade de fazer contato visual com um curitibano simpático ou um mais provável não-curitibano.

           Porém, no lugar dos famigerados quadradinhos, as calçadas curitibanas ostentam pinhas em suas superfícies, estas nascem das araucárias e quando maduras dão pinhão, um fruto típico do inverno sulista que se caracteriza pelo seu gosto difícil de descrever e fiapos de casca que costuma deixar na boca.
            O engraçado é que a maioria dos curitibanos confunde os‘’desenhinhos’’ das calçadas com flores. Bom, talvez se pareçam com flores ou não se conheça da onde vem o pinhão. Aliás, eis aqui um bom enigma a ser adotado pelos mais curitibanos. Que tal andar, em silêncio, olhando para o chão, tentando decifrar se as estampas são verdadeiramente flores ou pinhas? Só não vale questionar o transeunte ao lado se são mesmo flores ou pinhas, deve-se manter a etiqueta curitibana – ‘’Ninguém deve ser perturbado por vozes, olhares ou toques. Nem mesmo se a pessoa assim quiser’’. Assim disse um curitibano que usava ceroulas por baixo de outras duas calças e se escondia entre dezenas de blusas, em um inverno tenebroso, e então, assim ficou estabelecido.
            As calçadas curitibanas estão acostumadas com pés que pisam firmes, outros mais leves, que trocam passos cruzados ou que seguem sempre retos. E como não se lembrar daqueles pés que repousam escondidos embaixo das marquises a procura de um caminho? Ah, os pés curitibanos!  Como são tímidos. Seriam tímidos mesmo ou só indecisos e precavidos? Afinal de contas, nunca se tem certeza de como desfilar pelas passarelas das flores ou pinhas. Quem sabe tênis, sandálias, botas, sapatilhas. Na dúvida, aconselha-se um calçado para cada estação do dia.