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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Amizade de papel

                                     
Simone Leal
                                               
Sobre o criado mudo, ao lado da cama pequena e estreita, repousa um amigo de todas as horas, ou melhor, dos momentos em que as palavras insistem em não sair pela boca e preferem serem ditas silenciosamente em linhas de um caderno velho. Uma espécie de confidente com algumas folhas arrancadas, outras riscadas e com ''orelhas de burro'', orelhas estas que escutam pacientemente, o que não pode ser dito.

Ali naquela caixa de segredos, estão coisas escritas em momentos de raiva, de alegria, de tristeza e até em situações em que nada se sentia, mas que mesmo assim precisavam ser registradas, apenas por deixá-las guardadas em algum lugar, que não dentro de si.

Assim como acontecem com os amigos de carne e osso, quando há o reencontro da amizade feita de papel e caneta, são relembradas as velhas histórias que aconteceram de fato e aquelas que só ganharam vida na imaginação, nas páginas rabiscadas. Não raramente as folhas parecem rejeitar certas palavras, que podem desencadear horas de reflexão.

Com o tempo fica visível que algumas coisas não mereciam sequer ter chegado ao conhecimento deste fiel confidente, porém outras precisam ser lidas e relidas quantas vezes forem necessárias, pois trazem lembranças de vozes, olhares, cheiros, palavras soltas, sentimentos e tantos outros acontecimentos do dia a dia. Talvez ao longo dos anos este laço de amizade fique para trás, mas os segredos compartilhados ficarão guardados por um longo período.