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sábado, 29 de dezembro de 2012

As coisas que falam sem nada falar

                Simone Leal

 
Pernas e braços cruzados é a típica postura de quem conversa para dentro. Tímidos, antipáticos, introspectivos? Não. Somente amantes do silêncio.  Não é uma questão de ter ou fazer amigos, é mais do que isso. É saber interpretar aquelas palavras que não necessitam de sonoridade para serem ditas e que mesmo assim podem ser interpretadas, basta senti-las.


Não há nada mais leal e gratificante em uma amizade do que poder andar ao lado de um amigo em silêncio, há momentos em que a sincronia dos passos entre duas pessoas é capaz de substituir as gargalhadas, as conversas, as loucuras. Apenas isso é o suficiente para comprovar que elas estão conectadas, se fazem bem e se gostam ao ponto de conseguirem dividir o nada.

Até mesmo o amor por essência é mudo, pois quase sempre o que atrai são os olhares, os jeitos e trejeitos, as mãos dadas, os abraços, os beijos, os suspiros, os toques. Qualquer declaração por mais enfeitada que seja, por mais substantivos e adjetivos que contenha pode ser trocada pelas batidas ligeiras do coração, pelo frio na barriga e também pelo - ‘’O que eu faço agora?’’, quando a pessoa amada se aproxima. Por mais útil que seja um dicionário, há sensações que só podem ser compreendidas quando se consulta o próprio corpo.

Pra que falar? Se a gente pode sentir o vento gelado no rosto, modelando o cabelo ao seu gosto. Se o cheiro traz as lembranças, se o barulho da chuva acalanta. Se não souberes o que dizer guarda o som, os verbos e demonstra fazendo.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Amizade de papel

                                     
Simone Leal
                                               
Sobre o criado mudo, ao lado da cama pequena e estreita, repousa um amigo de todas as horas, ou melhor, dos momentos em que as palavras insistem em não sair pela boca e preferem serem ditas silenciosamente em linhas de um caderno velho. Uma espécie de confidente com algumas folhas arrancadas, outras riscadas e com ''orelhas de burro'', orelhas estas que escutam pacientemente, o que não pode ser dito.

Ali naquela caixa de segredos, estão coisas escritas em momentos de raiva, de alegria, de tristeza e até em situações em que nada se sentia, mas que mesmo assim precisavam ser registradas, apenas por deixá-las guardadas em algum lugar, que não dentro de si.

Assim como acontecem com os amigos de carne e osso, quando há o reencontro da amizade feita de papel e caneta, são relembradas as velhas histórias que aconteceram de fato e aquelas que só ganharam vida na imaginação, nas páginas rabiscadas. Não raramente as folhas parecem rejeitar certas palavras, que podem desencadear horas de reflexão.

Com o tempo fica visível que algumas coisas não mereciam sequer ter chegado ao conhecimento deste fiel confidente, porém outras precisam ser lidas e relidas quantas vezes forem necessárias, pois trazem lembranças de vozes, olhares, cheiros, palavras soltas, sentimentos e tantos outros acontecimentos do dia a dia. Talvez ao longo dos anos este laço de amizade fique para trás, mas os segredos compartilhados ficarão guardados por um longo período.

sábado, 2 de junho de 2012

De...Para

Simone Leal 

Se te uma coisa das várias as quais eu sinto falta da minha adolescência, com certeza é de receber uma carta. Hoje em dia o máximo que se recebe é uma mensagem toda abreviada no Facebook, dependendo da pessoa que enviou pode até ser especial, mas não tem o mesmo encanto e o charme de receber uma carta.

Receber aquele papelzinho todo decorado, enviado especialmente para você, era muito bom. Eu sentia muito mais as palavras, não meramente lia como acontece hoje. A carta  poderia vir das amigas e amigos ou de um namoradinho e nem importava o que estava escrito, poderia até ser frases idiotas do tipo ‘’Atravessei o oceano numa casca de limão, faço de tudo para ganhar seu coração’’. O importante era que aquela pessoa havia parado um instante da vida dela só para fazer uma carta, única e exclusivamente para você.

Além de receber, fazer uma carta também era muito bom, você usava o que tinha de ‘’melhor’’, até mesmo os intocáveis adesivos do seu caderno para enfeitá-la, fazia um verdadeiro carnaval com as suas incríveis canetas coloridas. E no final quem recebia ficava feliz. Parece bobagem, mas estas eram as coisas que nos faziam bem naquela época. Não que a velocidade e a agilidade que a internet proporciona para mandar uma mensagem por email ou em alguma rede social, não seja boa, mas eu ainda prefiro a boa, em desuso e velha carta.